Leprosário da Alma (2013): uma lírica do desconforto

Nesta mais que bem-vinda coletânea estão reunidos exemplares de diferentes levas do trabalho do poeta, produtor musical e zineiro Eduardo Morpheus Affinito, desde poemas publicados em seus primeiros zines, que hoje figuram como relíquias em coleções dos entusiastas da subcultura gótica, a inéditos recentes.

Respeitados como poucos no underground gótico, estes poemas oferecem ao leitor a vivência simbólica de um profundo desconforto existencial, marcado, sobretudo, pela aproximação do profano e do mundano. Como resultado dessa mescla, antigos motivos literários são ressignificados: a vertigem da Queda ecoa nos solavancos de paus de arara, a revolta luciferiana respinga pelo suor de lavradores e a recusa de qualquer noção de divindade passa a contar com argumentos extras a cada nova favela que brota nas metrópoles.

Além disso, o poeta não se apresenta como alguém empenhado em domar a linguagem e o caos subjetivo pelo domínio estrutural do gênero, como um encantador de serpentes comprometido em entreter o leitor. O poeta que aqui encontramos confunde-se com essas serpentes e convida-nos a percebê-las em nossas ruas, casas, camas e almas, enquanto insistimos em ignorar sua presença e seu veneno.

Não por acaso, talvez por apropriarem-se dos signos da subcultura gótica de forma significativa ao mesmo tempo em que evitam seus clichês, alguns destes poemas se tornaram letras de excelentes bandas nacionais de pós-punk, como Vultos e Colder Than Us, que conseguiram captar e reproduzir a dignidade destes escritos.

Entretanto, mesmo tendo se tornado referência no preto e branco dos zines e no canto grave do gothic rock nacional, os poemas de Morpheus ainda não haviam sido reunidos. Com esta compilação, porém, a produção de cada uma de suas diferentes fases são finalmente justapostas em um panorama multifacetado, no qual epifanias proféticas se equilibram com observações da crueza reinante, e o lirismo encontra sua voz na revolta mais essencial.

~ por Cid Vale Ferreira em 27/05/2014.

Uma resposta to “Leprosário da Alma (2013): uma lírica do desconforto”

  1. Gostaria de aproveitar e agradecer à Giovana Kraft pela revisão do texto e ao Humberto Luminati pela digitalização da capa!

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