De Profundis: arregaçando as mangas pelo gótico nacional

Paraiso pra gente

O Paraiso pra gente o que é que é? Um porãozinho, luzes apagadas, um palquinho, uma bandinha tocando e a gente ali ouvindo.

O alcance do trabalho de Eduardo “Morpheus” Affinito na cena gótica nacional extrapola São Paulo. Tendo morado parte de sua vida no Distrito Federal, sua história e sua atuação ajudaram a pavimentar a ponte entre as subculturas de São Paulo e Brasília, enriquecendo ambas ao estreitar laços entre os dois principais celeiros de bandas darks e góticas dos anos 1980 e 1990.

Muito antes do advento da internet, bandas obscuras do Planalto Central (como Lupercais, Pompas Fúnebres e Políbias) passaram a fazer parte do repertório paulistano graças às resenhas e matérias de seus vários zines (Gnose, Nada, Gothic Party, Atmosphere, Malké Havalah, De Profundis etc.). Além disso, Morpheus compartilhou fitas-demo, vídeos e contatos entre DJs e zineiros paulistanos, intermediando a aproximação entre agitadores culturais dos dois lados.

Essas iniciativas já teriam rendido todo tipo de menção honrosa a Morpheus, mas isso foi apenas o começo. Enquanto muitos cogitavam quão maravilhoso seria termos coletâneas e revistas focadas na divulgação da cena nacional, ele arregaçou as mangas e fez acontecer.

Para contar essas e outras histórias, o Projeto Trashland o entrevistou, e neste post você poderá baixar versões em PDF de suas revistas e acessar alguns trechos do nosso papo.

As coletâneas

O primeiro passo foi emplacar a coluna Darklands, voltada à divulgação do rock gótico, na revista Dynamite. Em seguida, Morpheus foi coidealizador do projeto Atmosphere, que organizava eventos em casas como Arkham Asylum e Thorns. Em pouco tempo, graças aos contatos estabelecidos em São Paulo e Brasília, os sonhos de compilar uma coletânea de bandas góticas nacionais e editar uma revista gótica em português pareciam cada vez mais viáveis.

Embora já existissem coletâneas de bandas darks e eletrônicas brasileiras, o primeiro CD produzido por Morpheus (com o apoio do DJ Floyd e do selo Baratos Afins) foi o primeiro a privilegiar explicitamente as bandas góticas nacionais. Intitulado Violet Carson (1999), a coletânea foi prensada em 1.000 cópias e esgotou rapidamente, abrindo as portas para as próximas compilações.

De Profundis (2012)Outros três CDs seriam lançados nos quatro anos seguintes. De Profundis (2000, com 15 faixas de cinco bandas nacionais), De Profundis – Versão Brasileira (2003, com 16 faixas em português de oito bandas nacionais) e De Profundis – Equinoxe (com três bandas alemãs e sete nacionais).

Recentemente, após um hiato de oito anos nos quais ninguém assumiu a lacuna deixada por essas iniciativas, Morpheus e Floyd capitanearam a produção de mais uma De Profundis (2011). Com amostras do trabalho de 20 bandas, o CD pretendeu registrar a situação em que se encontrava a cena no início de década de 2010, destacando estilos como a darkwave, o pós-punk, o industrial e o gothic rock.

Revistas

Inspirado pelo formato do zine/revista Invocations of Rozz Williams (tema de um próximo post), Morpheus deixou de lado a tesoura e a cola. No ano 2000, embora tenha reaproveitado o nome De Profundis, usado em três de seus zines focados em literatura marginal, suas próximas edições passariam a ser diagramadas eletronicamente e rodadas em gráficas, com raro esmero. Surgia, assim, uma publicação impressa cuja importância no underground gótico paulistano finalmente se equipararia à do zine Enter the Shadows.

Em quatro edições, publicadas entre 2000 e 2003, a revista ajudou a divulgar poetas, bandas, sites, casas noturnas e quadrinistas do meio gótico nacional, suprindo a principal carência de nossa cena. Sua escrita leve também exalava uma humildade pouco vista nessa subcultura, e suas páginas abrigaram matérias escritas por e sobre representantes de diversas correntes, aproximando grupos rivais sem favoritismos.

capaDesde então, com exceção talvez da revista Epidendrum Nocturnum, de Brasília, não tivemos nada semelhante no Brasil, e essa infertilidade da cena motivou o poeta a arregaçar novamente as mangas e preparar, no início de 2012, um quinto número da De Profundis, com tiragem limitada em 500 cópias.

Como essas revistas se esgotaram há anos, decidimos disponibilizar versões integrais delas em PDF. Esperamos, com isso, apresentar esse trabalho colossal às novas gerações e permitir que elas experimentem em seus olhos um pouco da areia de Morpheus Affinito e companhia. Aproveitem.

Entrevista

Download

De Profundis – número 1 (PDF, 22,5 MB)

De Profundis – número 2 (PDF, 32,7 MB)

De Profundis – número 3 (PDF, 24,6 MB)

De Profundis – número 4 (PDF, 20,7 MB)

De Profundis – número 5 (PDF, 27,8 MB)

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~ por Cid Vale Ferreira em 13/12/2012.

13 Respostas to “De Profundis: arregaçando as mangas pelo gótico nacional”

  1. Parabéns ao Morpheus pelas palavras e pelo desabafo e pela equipe, vídeo muito bem produzido…. abraços

  2. Sou o suspeito número um por gostar, mas ficou um ótimo trabalho… peço desculpas pelos trejeitos e falhas, mas o importante é a informação e ela está aí. Parabéns ao projeto e sua iniciativa.

  3. Me faltou apenas a número 1 e a 5 para eu completar a coleção. valeu pelos pdf agora posso ler as restantes.

  4. Não estou conseguindo baixar o número 1 mostra arquivo danificado.Voces poderiam postar novamente?.

  5. “…Jamais navegaremos por um mar de águas calmas, pois nossos espíritos clamam pelo desafio das tempestades!”

  6. Ow Cidão…

    Baixei todos e o 1º tá zuado mesmo!!

    Abraços!

    Floyd

  7. Parabens ao Morpheus pelas iniciativas e pelo árduo trabalho. Mas discordo que ‘nada foi feito’ nesse entreanos. As vezes acontecem outros esforços mas muitas vezes nem todos ficam sabendo. Pra ficar em um exemplo, em 2008 ou 2009 nao lembro ao certo, houve um zine / coletanea impecavel chamado ESPECTROS, vale MUITO a pena procurar.

  8. Muito legal o Vídeo e sábias palavras. Concordo plenamente com tudo que vc. disse e se precisar de ajuda pra movimentar a cena pode contar comigo. sou baterista tenho banda e trab. com sound design. abs.

  9. Sem palavras pra descrever o talento e a paixão que dizem respeito à esse cara que busca mover mundos e fundos em prol de uma cena melhor desenvolvida. Que permaneça na ativa por muitos longos anos!

    Sou fã!

  10. Salve amigos… Quando me refiro a nada foi feito, falo de dimensões mais amplas… o pessoal do Zine Espectros inclusive colaboram com o De Profundis e são meus amigos e mesmo assim foi difícil conseguir uma cópia porque foram feitas pouquíssimas e num alto teor de qualidade, tanto de informações quanto do material em si. Mas o que sempre quis realmente era unir a cena inteira, uma página para cada projeto abordar um assunto: moda, cinema, etc… e acredite, muita gente até diz que vai mandar o texto, mas depois passa a te ignorar… tem casos de pessoas que se irritaram por eu não responder algumas cartas… mas porra, mandaram para o endereço antigo, eu já moro em outro lugar há dez anos pelos menos e não sou um grão-vizir… se não respondi, não foi por descaso ou arrogância, apenas tive meus contratempos e realmente não deu. Agora, aquelas cartas borradas com sangue, etc… essas eu queimei mesmo! Não sou black metal! Acho tudo isso risível e não colaboro com a patologia alheia! Aliás, estou preparando o novo exemplar que provavelmente sairá lá pro meio do ano… e convoquei muita gente boa!!! Espero que desta vez a coisa flua!!!

  11. Republicou isso em drudenicola.

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