This is Drop Dead (2011): flagrantes do underground

Surgido em 2003, o Drop Dead Festival foi concebido como um festival nova-iorquino de deathrock. Desde então, muita coisa mudou. Em 2007, o festival migrou para a Europa (Praga, Portugal e Lituânia já sediaram edições do evento), e a proposta inicial foi ampliada para incluir estilos musicais afins, exposições artísticas, exibições cinematográficas e oficinas que promovem a cultura do “faça você mesmo”. Como se não bastasse, o núcleo que o organiza edita uma revista espetacular.

Diferentemente de outros festivais alternativos de maior porte, o Drop Dead Festival não comercializa registros em vídeo de suas atrações, mas um documentário amador acaba de preencher essa lacuna. Produzido por Brent Johnson e Jessica Gallant, This is Drop Dead está agora disponível em DVD. Ao todo, são quase duas horas de filmagem, que reúnem entrevistas, cenas de bastidores e 22 apresentações de bandas de diversos estilos. Além disso, há extras com o trailer, com cenas excluídas e com mais duas performances que apresentaram problemas de captação do áudio (pelas bandas Entertainment e Cinema Strange).

Filmado com apenas duas câmeras na quarta edição do festival (em 2006), This is Drop Dead levou cinco anos pra ser editado. Tal precariedade obviamente acarreta desvantagens. Faltam informações básicas, como o título das canções apresentadas, por exemplo. Tirando isso, cada segundo escolhido para compor a edição final se consolida como testemunho raro tanto do evento em si quanto do Zeitgeist da cena deathrocker de meados da década de 2000. Para adquiri-lo, basta enviar U$ 16.00 (frete internacional incluído) via PayPal para a conta de Jessica Gallant (filmgal@roadrunner.com).

Cinema Strange

Line-up

Das 66 bandas que tocaram no festival, o documentário selecionou trechos destas 22 apresentações.

Din Glorious • The Opposite Sex • Loto Ball Show • Siiiii • Lene Lovich • Ausgang • Cinema Strange • Ex-Voto • Big Ravi • Mortal Clay • Greg Phoenix • Blitzkid • Veronique Diabolique • The New Minority • Ausgang • Bell Hollow • Submarine Fleet • Signal and Report • Deadfly Ensemble • Bomémien • The Lene Lovich Experience • Din Glorious

Destaques: This is Drop Dead no tabuleiro

Enquanto buscava um critério menos óbvio para apontar destaques do line-up  do This is Drop Dead, acabei me perguntando: por que não avaliar as bandas como peças de xadrex? Não resisti, e foi exatamente o que resolvi fazer!

  • Poderíamos começar pelas torres: das 22 bandas selecionadas, aquelas com raízes nos anos 80  fornecem uma credibilidade indiscutível ao festival. Nesse sentido, os ingleses do Siiiii e os italianos do Bohémien representam o rock gótico executado com maestria, com a vantagem de  jamais terem sido desgastados pela superexposição midiática.
  • Se as torres são pilares de sustentação fincados no passado, os cavalos seriam aqueles que “não se movem como os demais”. Dessa forma, o dark cabaret do The Deadfly Ensemble e o caos performático do Din Glorious são responsáveis por boa parte da imprevisibilidade da seleção.
  • Se tomarmos como bispos as bandas que incorporam a “alma” do Drop Dead Festival, seria impossível não lembrar do Cinema Strange, reconhecido por sua releitura teatral do estilo batcave, e do Signal and Report, com sua mescla de cold wave e indie. Assim como o festival, eles atualizam e dão sobrevida a antigas facetas do underground.
  • Não é o caso de apontar as demais bandas como meros peões, mas só restam duas vagas. A rainha só poderia ser Lene Lovich, com sua presença magnética (sua primeira performance contou até com um teremim no palco). Já a banda-rei, sem dúvida, seria o Ausgang, que permanece plenamente convincente e merece o destaque recebido no trailer oficial do festival.

Depoimentos exclusivos ao Contraforma

Siiiii

“A diferença mais marcante entre o Drop Dead Festival e todos os outros é o entusiasmo! Antes, as pessoas pareciam quase envergonhadas de se divertir e, a não ser que bandas como Bauhaus ou The Virgin Prunes estivessem tocando, elas se amontoavam em pequenos grupos fazendo cara feia. Acho que esta geração percebeu que ‘tudo não passa de música’ e está aí para curtir, enquanto o lance ‘gótico’ nos anos 80 era mais uma postura política. O lado ruim disso são os ‘pseudos’ e as figurinhas carimbadas da cena que fazem rios de dinheiro explorando bandas numa tentativa desesperada de se tornar um ‘rostinho conhecido’, mas isso sempre rolou.”

Paul Devine (Siiii, Niceville e Deep Valley Orgasm).

Din Glorious

“Para mim, o Drop Dead é único porque ele não é uma coisa. Muitos festivais, sejam eles de indie, hip-hop, house, enfim, são muito bitolados em relação a suas atrações (uma exceção é o incrível Primavera, no qual você pode ver tanto Swans e PJ Harvey quanto Odd Future, no mesmo espaço). O Drop Dead não é assim. Se o Drop Dead segue algum tipo de fórmula, seria ‘a música que a Polina acha interessante’. Dessa forma, você pode vir e ver algo mais experimental, ou algo enérgico que o faz dançar, ou algo que o faz berrar, ou qualquer outra coisa que você jamais tenha imaginado. Eu gosto disso, a gente precisa de novidade e variedade na vida. O Drop Dead é sombrio, mas ele não privilegia nenhuma sombra específica; em vez de buscar a modinha adolescente mais recente, tudo gira em torno da arte e da comunidade do ‘faça você mesmo’ e do amor pela música. Acho que muita gente não entende isso, o que é uma puta pena, mas sei que quem vem sempre se diverte, então acaba sendo legal do mesmo jeito.”

Daniel Jones (ex-Din Glorious, Gucci Goth, Better Than Sex).

Entrevista com Jessica Gallant

Contraforma – This is Drop Dead é um grande exemplo da cultura do “faça você mesmo”. Você poderia nos contar um pouco sobre como foi tocar esse projeto do planejamento ao lançamento?

Jessica Gallant

Jessica – A ideia por trás do documentário surgiu inicialmente como uma discussão no fórum do Deathrock.com. Comentei que queria comprar uma câmera HDV para gravar um filme de horror que teria bandas locais na trilha sonora, algo parecido com A volta dos mortos-vivos, cuja trilha trazia bandas do punk e do deathrock. (Aliás, devo salientar que sou cineasta profissional e já filmei quatro ou cinco filmes de horror.)

Brent Johnson (Theatre of Ice) era um membro do fórum e gostou da ideia. Porém, quando descobrimos que o Drop Dead Festival de 2006 seria o último a ser realizado nos Estados Unidos, decidimos fazer um documentário sobre ele.

C. – Sobre a seleção: foram peneiradas 22 apresentações de um total de 66. Como você as escolheu?

J. – Como havia apenas dois de nós, o que limitou o que poderíamos cobrir, decidimos filmar as bandas do palco principal na sexta, no primeiro dia do festival; as bandas do segundo palco no sábado; e então voltar ao palco principal no domingo para o terceiro e último dia do festival. No sábado, subimos ao palco principal e filmamos um show fantástico de uma das bandas de psychobilly, mas eles não quiseram aparecer no documentário, o que me chateou demais. Eu queria que tivéssemos conseguido cobrir mais bandas, mas, com apenas duas pessoas (geralmente cansadas e famintas), não pudemos dar conta de dois palcos ao mesmo tempo. O procedimento comum seria utilizar no mínimo quatro ou cinco operadores de câmera e um engenheiro de som para as apresentações, e provavelmente outro câmera e outro responsável pelo som para as filmagens dos bastidores.

De qualquer forma, tentei conseguir material adicional. Havia mais gente com câmeras no festival, e tentei contatá-las, mas não obtive resposta. Fico triste de tantas bandas terem ficado de fora, mas foi fisicamente impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo.

C. – Você planejou algo para o material captado que não entrou no documentário?

J. – Infelizmente, precisei cortar muito material da edição final (entrevistas, cenas de bastidores, extras e todas as fotos que tiramos do festival) para conseguirmos espremer tudo em um DVD de camada simples. Tive inúmeros problemas tentando criar um DVD de dupla camada confiável o suficiente para servir de matriz, e esse problema atrasou o documentário em cinco ou seis meses. Acabamos decidindo por reduzir o documentário até que ele coubesse em uma só camada.

Quem sabe um dia, quando eu tiver o conforto financeiro necessário, eu reedite o documentário inteiramente e lance uma “versão da diretora”, mas esse é um plano para outro momento – isso custa tempo e dinheiro. Prefiro começar um novo documentário sobre a cena deathrocker de Los Angeles para apresentar alguns dos agitadores culturais, clubes, eventos e bandas incríveis que temos aqui na Costa Oeste.

C. – Como os clientes de fora dos EUA podem encomendar cópias do DVD?

J. – Por enquanto, é possível comprar o documentário diretamente de mim por U$ 12.00 mais U$ 4.00 de frete internacional. Basta enviar-me os U$ 16.00 via PayPal (filmgal@roadrunner.com).

Trailer

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~ por Cid Vale Ferreira em 24/06/2011.

6 Respostas to “This is Drop Dead (2011): flagrantes do underground

  1. Um excelente artigo, meus parabéns. Tem até link para adquirir o arquivo.

    Um dia ainda vou no Drop Dead.

    • Muito obrigado pela visita e pelo elogio, Darcko!
      Estou conferindo seu blog agora mesmo (comecei pelo artigo para o Goth Day). Parabéns pela iniciativa!
      Abração,
      Cid

  2. Parabéns mais uma vezm Cid.
    É um “Midas” da subcultura. Que bom poder prestigiar das suas pesquisas nessa novovo canal.

    Um forte abraço

    R. Nacht!

  3. Nhoum….ir ao Drop Dead é o desejo-mor de todos…ou quase todos…sei lá xD uhauha

    Mas heim…o post ficou ótimo mesmo, faço minhas as palavras dos colegas acima *.-

    • Olá, Isabella!
      Realmente, deve ser uma experiência e tanto! Ir a alguma edição está na minha “lista de coisas para fazer antes de morrer”. Obrigado pela gentileza do seu comentário.
      Beijo!

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